quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Minha de novo

Vamos, entre
Não tenha medo, sente
Acabe com este silêncio, fale
Pensando bem, cale


Em meu rosto habita tanta dúvida, mire
E em seu dorso, o peso da culpa, mas tire
Não falaremos sobre nossos embates agora, adie
Essa noite é de deleite, então aproveite


O quarto ainda é o mesmo, se achegue
Nossa cama continua refúgio, deite
Não precisamos nem de prelúdio, apenas deixe
Hoje o meu corpo clama pelo seu, por favor, o aceite

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Redentora Visita



Acordou com aqueles olhos de ressaca, vermelhos e inchados como se tivessem dormido por semanas. Parou ante ao espelho do banheiro sujo. A imagem que via era a de um sujeito magro, de braços finos e longos, dentes amarelos e cabelos que lhes caíam até as maçãs do rosto. Lavou a face coberta de pêlos ralos, bebeu água direto da torneira e mijou todo o resultado da noite passada. Cuspiu para o vaso o gosto amargo da boca e, por um momento, pediu que a descarga levasse também algumas de suas memórias.
Na cama novamente, acendeu e tragou seu cigarro barato. Logo na primeira brasa imaginou o quão eficaz seria ter, assim como o urinol, um dispositivo que expelisse toda sorte de excrementos. Resíduos fétidos não absorvidos de seus desamores, relacionamentos malsucedidos e frustrações diversas. Pensou estar delirando.
Abriu as cortinas para verificar se o mundo lá fora estava tão desajustado e mórbido quanto ele o estava. Através da janela observava-se um céu em dégradé, que ia do azul turvo ao cinza triste. Os automóveis, a poucos metros do pequeno edifício de três andares, corriam mudos e pareciam não ter sentido. As pessoas apressavam o passo para fugir da chuva que se aproximava e não olhavam umas para as outras. Pareciam formigas desorientadas e vacilantes.
Alheio ao movimento da rua, tragou o cigarro até o filtro e jogou a bituca na calçada, sem ao menos ter o cuidado de não acertar alguém. Olhando para o nada, achou que o dia combinava com um acontecimento incomum, que agitaria a vizinhança e lhe safaria de sua própria existência. Quis acabar-se na grama do jardim do condomínio. Riu de sua tolice quando se deu conta de que morava no primeiro apartamento logo após o térreo.
Saiu da janela e vestiu o jeans surrado que amarrotava-se junto à parede. A campainha soava delicadamente. Abriu a porta sem espiar pelo olho mágico. Ensaiou uma expressão de surpresa ao deparar-se com a velha mãe, que trazia no rosto um enorme sorriso terno. A mulher entrou, olhou para o filho com os olhos que melhor traduzem a beleza das coisas. Tirou da sacola de feira um potinho com bolinhos de chuva ainda quentes. Acredite, ela fazia os melhores. Tirou também um embrulho, pediu que o filho abrisse. E ele o fez. O que era? Lembranças. Amáveis lembranças envoltas num papel vermelho brilhante. Recordações que cheiravam a pipoca, groselha e maçã do amor. O rapaz rendeu-se às lágrimas. Acariciou o Fusca preto que certo dia ganhara no tiro ao alvo, no parque de diversões que havia se instalado no bairro em que morava. O brinquedo estava perfeito. Ao contrário dele, conservara ilesa toda a simplicidade e a inocência da infância. O filho encolheu-se no chão, recostou a cabeça no colo da mãe e viu nas rugas daquele rosto um motivo para sair do poço de estupidez e perturbação que pouco a pouco o afogava. A velha afagou os cabelos do filho e disse com a voz mais aveludada que existe: - Volta para casa. O seu quarto, suas coisas, o meu amor e tudo o que você abandonou continuam como esse carrinho, intactos.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

"E eu sou só mais um desses meros tão mortais"


Não sei quem está certo em toda essa história. Você me acusa de uma porção de coisas, diz que sou negligente, frio, distante e o diabo. Já objetou acerca de minha previsibilidade e taxou de monótonos os nossos momentos. É tão mais simples identificar o que nos incomoda, não é? Parece que o que nos perturba no outro está sempre à flor da pele, pura e translucidamente perceptível. É. Os sinais de cisão vieram mais cedo do que imaginara. E eu que pensei que isso fosse característico de relacionamentos longevos. Engano meu.
Peço-te perdão. Reconheço que, às vezes,aparento pairar em minha própria órbita. Admito que posso ser incoerente, e até leviano em certos aspectos. Mas, por favor, não me ultraje a ponto de lançar apenas sobre mim o fardo de nossos problemas. Vasculhe sua conduta e verá que em muitas coisas você também tem sido falha. Faça isso sem medo ou culpa. Não há condenação em reconhecer nossas debilidades.
Sabe, sinto o fato de você ater-se a nomenclaturas e simbolismos. Em minha humilde concepção, penso que o que significamos um para o outro é que deveria estabelecer nossas diretrizes. Acho que nossos rostos e a aparente felicidade é que deveriam estampar nossa consideração mútua.
Peço que você não me idealize, seria uma tarefa absolutamente vã. Peço que não me cobre, que não reduza o que há entre a gente a um mero compromisso pré-estabelecido. Desejo sinceramente que deixemos ser, deixemos estar. Quero que aproveitemos e saibamos destilar o que há de melhor em nossa essência. Espero de verdade que façamos valer a pena, que lancemos ao rol dos momentos memoráveis cada peculiaridade do tempo que passamos juntos. Eu ainda estou disposto a isso. E você?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Beginnig


Sinto-me meio cansado, desmotivado. E isso não tem nada a ver com ninguém, a não ser comigo mesmo. Talvez eu não seja maduro o bastante para levar coerentemente minha semi vida adulta. Gostaria muito e receio que eu realmente necessite de férias. Deixar para trás velhos (e queridos) rostos, contas pendentes, livros a serem lidos e filmes por assistir, e todos os protocolos e rituais de minha rotina, nem que fosse por um curto espaço de tempo seria, no mínimo, aliviador.

Às vezes penso que tudo o que precisamos é esquecer (d)a vida, para quiçá então vivê-la intensamente. Esta seria uma bela frase, não fossem o ônus e as dificuldades que pô-la em prática implicam.

Dois mil e dez está só começando. Nos primeiros instantes de sua chegada não fiz nenhum pedido em especial e tampouco estabeleci metas para o novo ano. Acho que tudo o que desejo são conversas espontâneas, sussurros ao pé do ouvido, olhares e sorrisos sinceros e abraços apertados de braços acolhedores. Em 2010 quero mais noites sem dormir, quero minha risada fácil, quero beijos intermináveis. Peço que este ano me preseteie com alegres banhos de chuva, com café e cama quentinhos, com mais adrenalina nas veias.

Ao fim deste ano quero rever meu baú particular, e me certificar de que valeu a pena acumular toda a bagagem ali contida.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

E meu mundo girou


Ontem me peguei revirando algumas gavetas. Não sabia muito bem o que procurava, talvez tudo o que eu queria era rever livros, apostilas e papéis velhos que ali jaziam desde 2008. Passei brevemente os olhos sobre o caderno que usava no cursinho, reli alguns esboços de redação, encontrei o encarte publicitário do cursinho, com a foto e o nome dos aprovados no vestibular 2009 da UEL. Foi bom recordar aquele vitorioso 16 de janeiro, ouso dizer que foi um dos dias mais felizes da minha vida. O ano de 2009 realmente passou voando. Mesmo sem saber se fiquei ou não de exame em Sociologia, sinto-me estimulado com o fato de em breve me tornar um veterano.
Esse primeiro ano na Universidade foi um tempo intenso e de muitas mudanças, foi, sem dúvida, um período de amadurecimento e enriquecimento cultural. Todavia, creio que as melhores recordações não ficaram por conta das técnicas jornalísticas que aprendi ou dos seminários que apresentei. As pessoas que conheci esse ano, sim, foram responsáveis por minhas melhores lembranças. Desde as mais cômicas como as reuniões no Parque Universitário e as peripécias pelos barzinhos da cidade, até as mais simples como os jantares no RU e os papos regados ao café aguado do Pinguim. Para mim, ingressar na academia não significou apenas o ponta pé inicial para a profissão que escolhi, representou encontrar pessoas incríveis, cuja amizade eu quero levar para o resto da vida.
Em 2009 eu aprendi que passar o fim de semana estudando nem sempre garante boas notas, mas o fazer continua sendo a alternativa mais coerente. Aprendi também a não traçar longos percursos, e sim percorrê-los aos poucos enquanto seu trajeto é desenhado ao sabor do acaso. Nesse ano me vieram novos amores, cada um, com sua graça peculiar, me fez (faz) feliz de maneiras diferentes. Também em 2009, veio ao mundo o maior amor da minha família, uma bela e encantadora garotinha de olhos grandes. Em outubro eu finalmente consegui a aguardada CNH, minha carta de alforria aos ônibus lotados.
Em 2009 eu chorei, sorri, gritei, dancei (sim!). Esse foi o ano em que percebi o quanto fico engraçado quando de porre. Foi o ano em que tive medo, medo de perder pessoas que estimo, medo da violência, medo da rejeição, medo de fazer escolhas erradas, medo da vida. Mesmo assim, digo sem sombra de dúvidas que foi o ano em que mais vivi! Àqueles que, de uma forma ou outra, me ajudaram, me alegraram, me suportaram ou simplesmente marcaram presença, o meu obrigado. Vocês contribuíram para a construção de parte da minha felicidade (porque a felicidade é algo que edifica-se em partes, cuja estruturação jamais cessa). E, por que não, do meu caráter.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Siga os ditames e seja feliz


Preceitos "verdadeiros" para que a ordem seja mantida.


Tenha um emprego. Ganhe seu próprio dinheiro e pague suas contas. Não falte às aulas. Entregue em dia todos os seus trabalhos e leia a bibliografia básica do curso. Planeje o futuro e vislumbre onde quer estar daqui a cinco anos. Seja gentil com as pessoas e diga sempre “obrigado”. Tenha cuidado com o que fala! Palavras cirúrgicas não são bem-vindas em nossa sociedade. Cultive a política da boa vizinhança, mesmo que isso compreenda calar aquele “filho da ...” que vem à boca quando vez ou outra te prejudicam (há verdades que não precisam ser ditas, mantê-las incólumes dentro de si, às vezes, pode transformar o teu silêncio no mais eloquente dos discursos).
Ria quando a situação for engraçada. Mas o faça moderadamente, afinal, exageros são para os insensatos. Comova-se quando for o caso, no entanto, guarde as lágrimas para mais tarde, no quarto. Chorar em público é coisa de gente fraca, que não tem autocontrole. Use roupas que descrevam quem você é. Compre. Parcele em quantas vezes for preciso. Troque por um novo. Gaste! Pois, como diriam os Engenheiros, a “satisfação é garantida, e a obsolescência é programada”. Globalize-se. Entenda o porquê de tantos protestos contra o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad (mas antes, procure recordar para quem você votou nas últimas eleições para deputado estadual). Mantenha-se informado. Atualize-se. Não perca tempo!
Não faça greve, tampouco apóie movimentos sociais. De baderneiros já bastam os que organizam o narcotráfico. Não fure o sinal vermelho nem exceda o limite de velocidade da via, ainda que isso possa evitar que roubem teu carro ou te baleiem na cabeça. Não fume em bares e boates e em toda sorte de lugares públicos, exceto a rua. Não fume. Beba com moderação. Use camisinha e, sobretudo, faça sexo sempre que solicitado. Afinal de contas, você é homem, oras! Não use drogas. E, por último mas não menos importante, mantenha-se sóbrio! Mesmo que o mundo a sua volta rogue por certa dose de insanidade.

domingo, 20 de dezembro de 2009

So easy


Por que você não acredita quando eu digo que o que passamos juntos foi importante para mim? Não tenho o costume de mentir, muito menos de brincar com os sentimentos de outrem. Na realidade, nunca fui um conquistador ou o queridinho das garotas. Apaixonei-me algumas vezes, mas sempre cheio de reservas. Ainda não aprendi a relaxar e a permitir que o acaso ensine o certo e o incerto. Infelizmente levo comigo alguns preceitos particulares dos quais ainda não tive coragem de abrir mão, eles são culpados por esse meu medo de me envolver.
Foi você quem sempre falou que não havia um manual que nos mostrasse como proceder, que não era necessário lidar com certas coisas de forma tão regrada. Sabe que você me lembra uma canção? “So easy” é o nome dela. Não há como dizer que para mim foi tudo em vão, a verdade é que eu tentei assimilar uma porção de coisas. No começo do mês, depois de tanto tempo, entrei novamente em seu apartamento para pegar algumas cervejas junto com uns amigos. Foi bom rever a cama cheia de roupas, os copos e pratos por lavar. Fiquei poucos minutos por lá, o bastante para passar os olhos em tudo, inclusive em seu mural de fotografias, no qual obviamente não estou.
Agora você anda dizendo que sou eu o culpado por seu mau humor, fala que gostaria que eu me magoasse com a pessoa que agora está comigo, admite querer que eu me machuque, na mesma proporção que um dia eu te machuquei. Ora, perdoe-me se te feri. Mas por que você se diz ferida? Moça, talvez eu não tenha tentado o bastante, talvez eu não tenha nos dado o tempo necessário, entretanto, creio que você estaria pior se a gente tivesse continuado. Você me acusa de leviandade, todavia, creio que o meu grande erro seria não ter tentado. E desse fardo estou livre. Não é sempre que as coisas saem como planejamos. Não devemos nos crucificar ou procurar responsáveis por nossos insucessos.
Querida, aceito se disser que nunca mais olhará em meus olhos, entendo se declarar que não é possível a gente freqüentar os mesmos lugares sem que pese o clima. Mas, sinceramente, não me arrependo de nada. Nada. Dentre todos os possíveis adjetivos, eu realmente espero que você tenha levado apenas o meu melhor. Foi o que fiz com você.

domingo, 22 de novembro de 2009

Bagunçada bagagem


Quando a luz do Sol enfim transpôs a persiana Fred tomou coragem para deixar a cama. Sobre o criado mudo estavam o cinzeiro, o maço de cigarros e o saudoso retrato que ele havia tirado com Ariel no outono passado. Naquela época as preocupações não eram as mesmas de agora, naquele tempo as brigas e discussões não surtiam efeito algum, eles se sentiam inabaláveis. Hoje as coisas não mais funcionavam daquela maneira, tudo estava diferente, apesar de Ariel ainda conservar o olhar tenro e sua pele ainda cheirar a alecrim.
Há algum tempo atrás, após o término daquela aula de ética que era um porre, Fred e sua moça juraram amor eterno. Ele beijou a mão suave de sua pequena enquanto inalava o perfume que vinha de seus cabelos, tão curtos quanto os dele, mas de uma beleza incomparável. Fred prometeu que se casariam após a faculdade, Ariel assentiu, já que não restavam dúvidas de que aquele era o homem com o qual ela queria amanhecer todos os dias.
Antes mesmo de lavar o rosto, o rapaz acende um cigarro, senta sobre o pufe vermelho ao lado da cama e se põe a recordar momentos de uma história que por longa data foi como um sonho bom, daqueles em que a gente não quer nem acordar. Abraçada ao travesseiro estampadol, Ariel dormia serena e ingênua, como quem dá de ombros para tudo o que pertence ao mundo desperto.
Fixados com imã na porta da geladeira estavam a conta de luz e o boleto para pagamento do aluguel do pequeno apartamento. Na despensa havia apenas um vidro de Nescafé e de azeitonas, açúcar, óleo e um pacote de arroz pela metade. Desde que decidiram morar juntos os dois passavam por apuros. Os pais de Ariel desaprovavam o romance, por conta disso mandavam apenas o dinheiro que a garota gastava com transporte e alimentação durante o período de aulas. Fred era estagiário numa agência de publicidade, ganhava pouco. Da mãe, funcionária pública, obtinha apenas o dinheiro do aluguel.
Fitando de longe a ultrasson jogada num canto do quarto o rapaz entendia o quanto amores arrebatadores e realidade podem representar elementos antagônicos. No dia em que Ariel trouxera suas roupas e pertences para o número 104 do residencial Manuel Bandeira nem lhe passava pela cabeça engravidar no mês seguinte. Tudo bem que os dois já haviam pensado em um casal de filhos e em todos os presentes que circundariam a árvore de natal nos tempos de festa, mas aqueles eram planos para uns oito ou dez anos adiante.
Ainda restava um ano e meio para a formatura e seu ingresso efetivo na tão sonhada profissão, entretanto, Fred já sabia o que era fazer alguns serviços por fora para pagar uma conta que sua renda mensal não conseguia cobrir. Dois anos para planejar seu casamento e arquitetar a lua de mel em Porto de Galinhas, e daqui a seis meses o jovem já seria pai. Era moço e não tinha muito conhecimento de mundo, mas agora tinha ciência de que a falta de dinheiro realmente pode abalar relacionamentos.
Fred sente um lampejo desesperador, um nó angustiante na garganta. Olha para o telefone e pensa em ligar para a mãe, chorar e pedir abrigo contra as quimeras que lhe assombravam a mente. Na cama, Ariel desperta e lhe sorri um sorriso encantador, o que logo o faz desistir da ligação, acender outro cigarro e voltar para a cama.

sábado, 7 de novembro de 2009

Sabadaço...


Já é noite, noite de sábado, quase 22h30 e eu sentado em frente ao computador. Procuro palavras capazes de descrever meus pensamentos, mas não há inspiração para tal. Às vezes nem eu os entendo. Eu realmente espero que as irrelevâncias aqui digitadas abstraiam um pouco minha mente. Não quero e nem vou reclamar, não pretendo contar como foi meu dia nem detalhar como foi que eu consegui ferir meu joelho e cotovelo direito. Basta dizer que caí, de moto, numa pista escorregadia, cheia de barro e pedriscos. Por sorte o meu anjo da guarda não é displicente, tudo bem que desde a tarde os machucados insistem em sangrar, mas para essa ocasião o ditado clichê vem a calhar: “dos males o menor”.
Lá fora o chão ainda está molhado, o ar está leve, gostoso de ser respirado. Mesmo assim prefiro ficar aqui, longe de todo o som típico das noites de sábado, distante das gargalhadas e das vozes alteradas. Na zona oeste da cidade acontece uma das festas mais esperadas do ano, aquela que dizem ser “a maior festa à fantasia do mundo”. O pessoal da sala comentou de irmos todos juntos, até planejamos fantasias e rimos quando alguém me sugeriu que eu fosse de Beto Carrero. No fim das contas nem sei ao certo quantas pessoas foram.
Hoje preteri a companhia dos amigos e a irreverência da noite londrinense pelo pastel de carne da dona Marly e um filme estrangeiro em DVD. Pela janela observo a vermelhidão das nuvens, acho que alguns baladeiros irão se frustrar. Eu nem me importo, hoje fico em casa cuidando dos meus pormenores, seco.

domingo, 25 de outubro de 2009

Opinião: o brasileiro e sua vida virtual


É cada vez maior o número de brasileiros conectados à internet. Isso se deve principalmente à popularização das lan houses, mas também há outros fatores, como a ampliação de linhas de crédito exclusivas para a aquisição de computadores de baixo custo. De uns tempos para cá, com o crescimento da renda média do brasileiro, milhões de famílias tiveram acréscimo de seu poder aquisitivo ou incluíram-se na chamada “classe média”. Podemos dizer que a íntima relação que o país tem estabelecido com a rede mundial de computadores é perfeitamente aceitável. E por que não, previsível?
Ah! Não podemos deixar de dar crédito ao mais famoso site de relacionamentos da rede, o Orkut. Comumente encontramos pessoas que jamais haviam acessado a internet solicitando aceitação como amigo virtual. Nada contra o site e seus usuários, até mesmo porque também conservo o meu perfil por lá. Mas o que se mostra preocupante é banalização desta ferramenta comunicacional. Há algum tempo atrás o álbum virtual do Orkut comportava apenas dez fotos, esse número foi aumentando, hoje o site é capaz de armazenar cerca de 1000 fotografias. Arrisco a me dizer que o site ajudou a trivializar aquilo que outrora fazíamos como forma de eternizar um momento, torná-lo memorável. Parece-me que atualmente adolescentes e jovens utilizam suas câmeras digitais ou as câmeras de seus modernos celulares apenas para atualizar seus respectivos profiles. E é sempre assim, um passeio pelo shopping, foto para o Orkut, viagens ou apenas visitas à lugares diferentes, dá-lhe atualização, o barzinho ou a balada da última noite, fotos novas no álbum. É facilmente perceptível que muita gente vem utilizando de sites de relacionamento como ferramenta de auto-afirmação, os álbuns e perfis reduziram-se a meros instrumentos de exibicionismo, em que o internauta mostra “o quanto é popular” ou tem uma vida agitada.
A bola da vez agora é o Twitter, uma rede social cuja principal característica é a comunicação rápida e instantânea, já que os tweets, como são conhecidas as postagens dos usuários, podem conter no máximo 140 caracteres. Há quem diga que o Twitter está abalando as estruturas no jornalismo convencional, posto que em alguns casos ele desbancou até os consagrados emissores de informação. Foi o caso da maior onda de protestos desde a Revolução Islâmica de 1979, deflagrada após a votação que reelegeu o ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad como presidente do Irã. Centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas com manifestações, e tudo, é claro, era postado detalhadamente em tempo real no Twitter. As mesmas twittadas foram o meio pelo qual manifestantes informavam uns aos outros onde encontravam-se os militares subordinados à força nacional, a fim de evitar que mais protestos fossem reprimidos. A CNN só conseguiu realizar uma cobertura decente três dias depois. E tudo porque a polícia fez marcação cerrada contra a imprensa. No caso dos manifestantes isso não foi empecilho.
A velocidade das informações disseminadas pelo Twitter é uma das prerrogativas de que dispõe a rede social. Michael Jackson morreu às 17h26 do dia 25 de junho, pouco tempo depois um site de fofocas estampou a notícia. Twitteiros espalharam freneticamente a notícia e em questão de minutos internautas do mundo todo sabiam da morte do astro pop. Isso, ao mesmo tempo em que os grandes veículos de imprensa como CNN e The New York Times noticiavam apenas que o cantor estava internado. Esperavam confirmação advinda de fontes mais confiáveis para só então apresentar o fato da maneira como as informações preliminares indicavam. É nesse ponto que uma ponderação em relação às vantagens do Twitter como veículo de informação deve ser feita. A intenção de seus usuários é publicar rapidamente uma mensagem, não checar suas informações. Dessa forma, a veracidade dos fatos pode ficar comprometida, já que os tweets são carregados de afirmações unilaterais, são o que o usuário afirma e pronto. No jornalismo comum os fatos são observados, pesquisados, rechecados, para só então uma possível matéria ser editada e publicada.
Voltando à simpática relação entre os brasileiros e a internet, o que tem de ser dito é que muitos cidadãos têm sido privados conscientemente de suas vidas reais por optarem por ficar horas e horas na frente do MSN, em salas de bate-papo ou visitando perfis de Orkut. O que observamos é uma super valorização da vida social digital do internauta, talvez ele tenha 300, 400, 500 amigos no Orkut mas não receba sequer uma ligação desejando-lhe um bom fim de semana. As pessoas conhecem-se pelo Orkut, trocam scraps e até e-mails, no entanto, o que sabem a respeito uma das outras é apenas aquilo que o outro desejar mostrar. E todos sabemos que não é nada difícil exibir “uma outra vida” através da telinha do computador.
O Orkut está presente em toda a rede mundial de computadores. Não parece interessante que ele tenha alcançado tamanha notoriedade e importância (na vida de alguns) somente no Brasil? Esse dado evidencia que nossos internautas podem estar exagerando na dose, substituindo sensações, emoções e experiências de verdade por imagens, fotos e caracteres enquadrados em seus monitores.
É louvável que o país esteja incluindo-se na era digital, assim como é muito bem vinda a democratização do acesso à informática e a crescente leva de brasileiros conectados. Entretanto, existem muitos outros fatores que devem ser observados com cautela. Quando mantemos certos avanços, ao passo que eles apresentam-se em detrimento da saúde física e mental (vida real relegada pela virtual) de nossa população é sinal de que algo está errado.

sábado, 17 de outubro de 2009

Sobre a reportagem fotográfica e suas resultantes


O alarme do celular despertou às 7h15, e isso em pleno sábado. O dia amanhecera feio, cinzento. Lá fora a chuva caia forte, me atraia de volta ao edredom. Cochilei por mais alguns momentos, espertava os ouvidos para saber se o aguaceiro havia dado trégua, que nada. Após ter ido me deitar quase às 4h30 da manhã, tudo o que eu queria era aproveitar o calor e o conforto da minha cama, mas isso não era possível, existia uma pauta para eu cobrir, da disciplina de fotojornalismo.
Tomei coragem e arrastei-me vacilante até o telefone. Disquei alguns números e desejei muito que a voz do outro lado da linha me dissesse que o evento havia sido cancelado por causa da chuva. No entanto, só em pensar em montar e cobrir outra pauta, e isso para a próxima quarta-feira, já me desanimava. A pessoa que atendeu informou-me que apesar do temporal as atividades programadas já estavam em andamento, e que ocorreriam até o meio dia, diferentemente do que eu havia pautado (18h00). Não tinha como fugir. Arrumei-me depressa, preparei câmera, caderno e caneta, tomei uma xícara grande de café e mais três cápsulas de guaraná, por sorte e num surto eventual de bondade minha mãe liberou o carro e até decidiu me acompanhar.
O tal evento foi intitulado de “Viver aqui é bom demais”. Vou logo explicando: a ideia partiu de um grupo de médicos que, interessados em promover algo filantrópico, decidiram estender seus serviços àqueles que não podiam pagar e buscaram o auxílio do município. Eles encontraram respaldo da prefeitura, que também topou o desafio. Dessa forma, a administração municipal leva, por meio de todas as suas secretarias mais a iniciativa privada, diversos serviços à comunidade. Alguns deles são: atendimento médico grátis e realização de exames para idosos previamente cadastrados nos postos de saúde, corte de cabelo, esclarecimentos na área jurídica, checagem de vagas de trabalho pelo SINE, recreação infantil com profissionais de educação física, registro e renegociação de dívidas junto à COHAB, capina e roçagem de terrenos, pintura e recapeamento de vias etc., tudo visando elevar a auto-estima dos moradores da região e dar “um novo visual” ao ambiente onde eles vivem.
E sabe que isso tudo foi apenas parte do que vi? A gratidão estampada no olhar das senhorinhas que saiam da sala do cardiologista, a felicidade do velhinho por enfim realizar seu exame de vista, tão demorado quando pelo SUS, essas coisas não passíveis de serem retratadas em palavras. A emoção da mãe e da família, constituída de cindo filhos mais o marido, em ver a imagem de ultrassom do próximo membro familiar através da barriga já saliente foi, sem dúvida, algo muito especial. O corre-corre das crianças, devidamente providas de biscoito de polvilho e algodão doce, exalava uma alegria singela e contagiante.
Essa foi de longe uma das experiências mais bacanas que vivi no curso de Jornalismo. Médicos das mais diversas especialidades, dentistas, terapeutas, especialistas em estética, pessoas voluntárias, muitas delas abastadas, ajudando com a maior gentileza e simpatia a seus semelhantes, que vivem a quilômetros do centro da cidade, numa realidade totalmente diferente da deles. É bom saber que ainda há quem se importe com os outros, que ainda há quem se sensibilize com a pobreza, com a falta de oportunidades, com a desestrutura familiar. No momento, minha vida está uma verdadeira correria, não tenho feito muita coisa nesse sentido, acho que meu gesto mais altruísta tem sido doar sangue, ritual que renovo a cada dois meses. São só 410 / 430 ml, mas penso que já é um começo.
Sinto-me feliz por essa manhã de sábado, e tenho certeza de que estaria arrependido se houvesse me rendido às atrações de minha cama. Mesmo que o professor julgue ruim as fotografias em primeiro plano e plano médio, mesmo que a variação das tomadas tenha sido insuficiente ou de baixa qualidade técnica todo o conjunto, dessa vez tudo valeu a pena!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Ei, você...


O que você acha de pararmos de ritualizar tanto os momentos que passamos juntos? Chega de planos, não quero mais combinar com dois dias de antecedência o que vamos fazer no sábado ou em que dia da semana a nossa agenda vai bater. Sei que nossos dias são cansativos e meus olhos vermelhos denunciam isso às vezes, no entanto, se realmente há interesse entre ambas as partes devemos superar isso. Se você me conhecesse um pouquinho mais saberia que não jogo palavras ao vento, entenderia que apesar de certo receio da minha parte meus enigmas são facilmente decifráveis. Mas não, parece que você não faz a menor questão de deixar tudo às claras. Estar ou não, ficar junto a mim ou não pra você é uma coisa só. Não há distinção. Desculpe, essa é, por enquanto, a única conclusão que consigo tirar desses 43 dias. Não tenho pretensão nenhuma em tocar nesse assunto novamente. Estou aqui, na minha. Decida por si só como vão ser as coisas.

domingo, 27 de setembro de 2009

Dissabores, morte e vida


Marcos era rapaz humilde, vivia com a mãe viúva e mais dois irmãos no subúrbio de uma cidade qualquer. Todos os dias era a mesma luta, Marcos acordava antes das 6h00, comia um dos pães que o dono da padaria de perto do cursinho reservava-lhe quando não eram de todo vendidos, acordava a mãe para seguir para o apartamento da patroa e os irmãos para ficarem na creche, só então tomava os dois ônibus lotados que o conduzia até o trabalho. A antiga oficina mecânica do Sr. Aluísio era para o jovem mais que um emprego, significava para ele o seu reduto diário, o lugar onde seu pai havia aprendido o ofício que hoje lhes garantia um pouco de dignidade.
Sob duras penas e a instabilidade do início da década de 80, Antônio conseguiu juntar algum dinheiro para construir a pequena casa de sala, cozinha e um quarto, o banheiro ficava na parte de fora, perto de onde atualmente fica uma torneira enferrujada e a velha lavadora tanquinho. Toninho, como era chamado pela esposa, não era homem estudado nem falava o português correto, não fazia a menor noção do que era a Emenda Dante de Oliveira que o telejornal da noite tanto falava. O que Toninho conhecia bem de perto eram as dificuldades que enfrentava para pôr comida em casa, diziam a ele que tudo estava tão caro por causa da inflação, Toninho assentia mas no fundo não sabia a quem culpar. Compreender tudo aquilo era para o pai de família apenas uma parte do mal encaixado quebra-cabeças que sua vida formava.
No fim de 1985 nasceu Marcos, um garotinho gordo, de olhos arregalados e cabelo castanho cacheado. O menino era esperto, aprendia dia rápido e falava feito criança rica, adjetivava tudo quanto podia e dizia que um dia ia conhecer Paris, Veneza e Estocolmo. A realidade era dura e as necessidades batiam à porta, sob choro e protestos da mãe Marcos deixou a escola na 8ª série para ajudar o pai na oficina. O menino era obstinado, não sabia muito bem o que esperar do futuro, mas sentia que os estudos representavam o caminho para algo muito melhor. Sem contar nada ao pai e após um ano de afastamento, Marcos matriculou-se novamente na escola do bairro.
O falante garoto havia se tornado um pequeno grande homem, trabalhava o dia todo e depois ia direto para a escola, com as unhas ainda sujas de graxa. Lucas e Matheus eram gêmeos, chegaram após arriscado parto, numa noite quente de fevereiro. A família enfim parecia respirar novos ares. No entanto, há pessoas que parecem ter nascido para desventuras, às vezes a vida parece irônica no trato com aqueles que mais precisam.
Em setembro daquele ano não se falava em outra coisa durante as aulas ou no horário do intervalo, a maior potencia do mundo encontrava-se abalada, acuada, ofendida. Mas não foram só as torres do World Trade Center que vieram abaixo, todo o concreto moral que preenchia as lacunas da vida de Marcos agora estava em ruínas, todos os alicerces, construídos com sacrifício anos a fio, haviam implodido. Numa manhã de terça-feira, dessas de céu azul, em que você acorda disposto, Antônio deixara sua marca vermelha num para-choques de ônibus. Assim como no centro de Manhattan brotara uma imensidão de escombros, o jovem Marcos estava perdido entre os entulhos da sua destruição particular.
O rapaz mais uma vez foi obrigado a amadurecer mais do que condizia com sua idade. A vida, que jamais havia sido doce, agora com brutal terrorismo intervinha nos sonhos do menino que quando criança sonhava com a utopia. Marcos, apesar do peso das responsabilidades, da lembrança e da dor, não abandonou o seu ideal de mudança.
Aos 17 anos, participou de sua primeira eleição. Pela tv Marcos via um sujeito barbudo, que assim como ele, vinha de uma história de lutas e dificuldades, de uma posição não privilegiada na sociedade. Não fora difícil decidir seu voto, apesar de tantas cicatrizes Marcos acreditava nos políticos e ainda conservava certa inocência.
Foram quase duas décadas, parece pouco tempo quando se trata de histórias de vida, mesmo assim, Marcos já passou por experiências que boa parte das pessoas morre de velhice e não vivencia. Ele continua ao lado do Sr. Aluísio na oficina, só que agora é rapaz estudado, cuida das notas fiscais de serviços, gerencia os gastos, organiza os arquivos. À noite Marcos frequenta cursinho, ganhou uma bolsa para o semi-extensivo e vai prestar o vestibular em dezembro. Apesar de novo, Marcos já sabe que inúmeras vezes as circunstâncias se mostram desfavoráveis e a vida, incoerente. Mas sabe também que sim, é possível, mesmo que por meio de esforços inacreditáveis, escrever uma história diferente, algo bom, para se ter orgulho. Ano que vem Marcos completa 20 anos, e pretende celebrar esta data junto de seus futuros colegas de faculdade. Alguém duvida que ele chegue lá?

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Sem você não dá


Se eu alcançasse pelo menos metade de todo o potencial que você vê em mim não haveria lugar para o medo em meu peito. Eu simplesmente não temeria o por vir ou ficaria tão inseguro quanto ao meu (in)sucesso.

Se eu tivesse a força que você pensa que tenho eu juro que colocaria tudo em ordem outra vez. Em teu rosto eu desenharia um sorriso matinal e ele contrariaria quaisquer circunstâncias.

Se eu realmente fosse falante e agitado como você julga eu não mais encontraria os teus olhos perdidos nem fugiria deles impotente. Às vezes perece-me tão difícil encontrar palavras para você, talvez por isso eu falhe em trazer-te confiança ou paz.

Você que sempre foi destemida, você que abraçava o mundo com tanta facilidade, de repente, como numa tremenda incoerência de script, encontra-se abalada e frágil, a ponto de me fazer pensar em como seria tudo isso sem sua companhia. Devo confessar que só em imaginar essa situação sinto um nó na garganta, aquela estranha sensação que descompassa nossa voz e sempre vem acompanhada de lágrimas.

Nesse momento, tudo o que eu mais quero é que você se restabeleça, para o quanto antes eu voltar a ouvir seu canto desafinado e meio sem ritmo.


Àquela que me ensinou o que é e como é a vida.

domingo, 13 de setembro de 2009

Poderia ser, mas não é.


Seria simples continuar caminhando se as pedras do caminho não houvessem ensinado a dor dos calos.
Seria fácil o desapego se o telefone não insistisse em tocar, ou se as noites trouxessem consigo apenas o sono.
Seria prazeroso ouvir as mesmas músicas se os versos não fizessem assim tanto sentido.
Seria divertido rir de uma última piada obscena, a menos que nossas vidas não fizessem parte de um livreto de humor grotesco.
Poderia ser simples, fácil, prazeroso, divertido, mas nada há entre nós que sequer beire esse estado de coisas. E tudo isso porque eu sou como sou, você é simplesmente você, e a vida, ela jamais altera as regras do jogo.