terça-feira, 1 de março de 2011

Meu amigo Ben


Eu tinha um amigo a quem carinhosamente chamava de Ben. Benjamin era o nome dele.
Ben era um cara bacana. Sorria ao dar bom dia, sorria para se despedir, virava-se sorrindo quando lhe cutucavam, sorria até para os cães que vagavam pela rua. Mas isso não tinha a ver só com felicidade, tratava-se de seu modo peculiar de encarar a vida. Benjamin ria e sorria. Sorria ansioso, eufórico, temeroso, esgotado, irônico ou apenas satisfeito. Seus dentes eram alinhados e vistosos, apesar do cigarro.
Muitos o tachavam de imbecil, sujeito sem pulso firme em cujos gestos escondia-se enorme fraqueza e falta de personalidade. Eu não concordo com isso. Benjamin foi uma das pessoas mais admiráveis que já conheci.
Meu amigo dizia estar no rosto, mais precisamente nos lábios, a fórmula mágica capaz de neutralizar as mais variáveis intempéries do relacionamento humano. Parecia resolver absolutamente tudo com uma simples extensão labial. Foi assim quando, ao manobrar seu Fusca vermelho modelo 78, arrancou o retrovisor do Golf do sogro. Num misto desconcertante entre constrangimento e nervosismo, Ben abriu um sorrisinho amarelo enquanto tentava mensurar o tamanho de sua cagada. Resultado? Um carro idêntico ao do sogro como presente de casamento. Essa é apenas uma das situações estranhas nas quais Ben mostrou os dentes para se safar.
Obviamente sorrindo, ele me contava seus dias. Dizia como sorriu nas tantas vezes em que foi recusado numa entrevista de emprego, como sorriu de dor ao ver descansar a pobre mãe, vítima de uma doença altamente degenerativa. Numa noite de inverno, antes do início da aula de literatura, Ben contou-me como foi abrir seu mais sincero sorriso, aquele que, segundo seus olhos marejados, exprimiu a sensação mais maravilhosa de toda a sua vida. Ben seria pai. Foi pai. O mais sorridente de todos, tenho certeza.
A última vez em que vi meu amigo sorrir foi quando terminamos a faculdade e prometemos não perder contato. Doze anos se passaram desde então.
Penso nele quase todos os dias. Às vezes mais, quando saudoso me recordo dos tempos de estudo. Por onde andará meu amigo? Será que ainda sorri como antes? Será que seus dentes perderam a beleza? Estarão cansados os seus músculos da face? Não sei. Talvez você tenha ouvido falar dele ou até o conheça de vista. Meu amigo é inconfundível. Você só não repararia nele se, assim como fiz por muito tempo, estivesse ocupado demais com a sisudez mórbida daqueles que não sorriem. Por favor, se acaso encontrar meu amigo por aí, diga que sinto saudade.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Ainda sobre a academia

Fazia muito tempo que eu não escrevia nada por aqui. Para falar a verdade, não escrevia em lugar algum. Se bem me recordo, a última vez em que escrevi foi quando o professor de técnicas pediu que cada um da minha turma fizesse uma reportagem com 10 mil caracteres, que rechearia nosso impresso laboratório.Isso foi em setembro. Nada mudou de lá para cá. O período letivo chegou ao fim, e, com o arrependimento que previ ainda no começo do ano, lamento-me nestas linhas.
É frustrante fazer um retrospecto dos últimos 9 meses e chegar à conclusão de que, por fraqueza, covardia, comodismo, ou qualquer outro adjetivo que couber, deixei de lado muito do que me era útil e necessário. Abandonei uma disciplina somente porque não quis me sujeitar às madrugadas prostrado ao computador e ao minucioso crivo das monitoras de diagramação. Para justificar essa decisão, eu disse que utilizaria o tempo livre para me dedicar decentemente às demais matérias, escrever no blog, ler mais, essa coisa toda.Não fiz nada disso. Tudo o que consegui foi me aperfeiçoar na arte da procrastinação, foi inventar desculpas imbecis para as atividades não realizadas, para os textos não escritos, foi respaldar todo o meu desleixo em justificativas que eu considerava relevantes, mas que não eram válidas.
Não sei o que desencadeou o desânimo de que fui refém durante todo este ano. O fato é que larguei as rédeas, apenas observei a banda passar, deixei minha vida acadêmica ao deus dará. Penso que muito disso seja por conta do fantasma que ainda hoje, às vésperas do penúltimo ano de faculdade, sussurra aos meus ouvidos que isso não é para mim. Se estava correto em escolher jornalismo como graduação e dizer que isso era o que eu queria fazer pelo resto dos meus dias, ótimo. Se não, ainda vou descobrir.
Bom é saber que sempre existirá um universo de possibilidades. Melhor ainda é recordar que, na contramão de minhas insatisfações enquanto estudante, dois mil e dez reservou-me belas surpresas em outras esferas. A melhor delas foi a que me salvou o ano, mas isso é assunto para um outro dia.

sábado, 17 de julho de 2010

Sobre minhas falhas enquanto estudante


Eu estava querendo algo que me desse respaldo, algo que legitimasse minha conduta, me livrasse de algumas obrigações e ao mesmo tempo trouxesse paz. Não encontrei nada senão as censuras de minha auto-condenação. É que eu cansei, sabe? Cansei das cobranças que incidem sobre estudantes medianos. Sim, eu sou um aluno medíocre. Não me comprometo, não leio bibliografias, estudo a poucos minutos antes das provas e às vezes nem estudo. Gostaria de frequentar disciplinas optativas, participar de projetos de pesquisa, escrever nesse blog de forma decente, atuar mais como um ser pensante em plena vida universitária. Mas isso exige o tempo de que não disponho. Aliás, faço minhas as palavras de Viviane Mosé, digo que ando exercendo instantes.
Tão ligeiros têm passado os meus dias que volta e meia esqueço na cama a força e a disposição. Há que se trabalhar, render, prestar contas, pagar contas. Família e amigos estão aí e reclamam atenção. A solidariedade tem que acontecer eu faço questão disso. Viver implica uma versatilidade capaz de transtornar e fadigar qualquer um. Exige-se sorriso, abraço, irreverência, presença. Momentos depois, prudência, sisudez, responsabilidade. Daí que por não saber lidar com tantas variantes, acabo relegando o que deveria ser prioridade.
Talvez eu me arrependa por ser tão negligente. Prefiro acreditar que, assim como aprendemos, somos seres adaptáveis. Quanto tempo leva esse período de adaptação? Não sei. O meu tem se arrastado já há um ano e meio.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Estranha e intrigante Marília

Marília não era do tipo que bebia café, não gostava de música alta e tampouco reclamava dos ônibus lotados que todos os dias tomava. Marília não navegava na internet, mantinha apenas o e-mail profissional que checava sem vontade duas vezes por dia. Antiquada, a moça não tinha telefone celular. E também não havia razão para tal. A jovem de 27 anos vivia sozinha na cidade e seu amigo mais chegado era Napoleão, o simpático basset com quem vivia no pequeno apartamento.Ela também subia uma ou duas vezes por semana ao andar de cima do prédio. Gostava de emprestar livros e hora ou outra jogar cacheta com o casal de vizinhos, Joanana e Martinho. Não se ouvia Marília cantar, praguejar, nem mesmo bater a porta. Sua feição era sempre a mesma, inexpressiva. Embora trabalhasse no escritório há três anos e meio, o comportamento de Marília ainda suscitava muitos comentários. Uns diziam que ela tinha vida sexual frustrada, como de fato tinha, mas por opção própria. Outros diziam que ela vinha de algum trauma de infância. Havia ainda a parcela de fuxicos que afirmava que a jovem tinha vocação para freira. Tolo engano. O cabelo embaraçado sempre preso e os óculos de armação pesada encondiam a perspicácia de uma mente frenética. Marília raramente dizia algo sem antes ser perguntada, preferia calar. Apesar de não verbalizar a maioria de suas impressões, Marília tinha, sim, muito a dizer. Acontece que ela julgava não valer a pena. Seus olhos percorriam toda e qualquer superfície, eram viciados em notar imperfeições e cores destoantes. Mas o resultado de todas as suas análises ela guardava para si. Não compatilhava nada. Desde o verso bonito de algum importante literato até o gosto da manga verde que adorava comer com sal. Marília sabia que havia algo errado. Não era possível que ela se bastasse daquela forma. Apesar da aparente insanidade, a moça adorava o seu jeito. Adorava gargalhar por dentro. Adorava ouvir seus gritos ecoando por entre os órgãos a partir do cérebro. Adorava vomitar sua ironia por sobre a mesa do chefe e enfeitar as ruas cinzas com as cores de seus pensamentos. Marília adorava ser assim, rica e sozinha, estranha e intrigante.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

"Primavera nos dentes"



Hoje essa letra fala por mim:



Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera
(Secos e Molhados)



Quem sabe também a minha boca exale o perfume das rosas...

domingo, 25 de abril de 2010

"Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada"


Não há mais nada aqui dentro.
Não há vestígios da mente outrora super povoada.
Não há mais o barulho das risadas, tampouco o som das ideias pipocando.
Aqui já não há vontade nem prazer, senão o artificialmente produzido.
Ah, e onde foram parar as antigas aspirações?
Quem levou embora a minha certeza e apagou a luz ao sair?
O que me resta dos velhos hábitos é suficiente para me manter são?
Ainda existe inocência? Ainda há redenção?
Não sei. Como eu disse, roubaram minha certeza.
Por aqui não há mais nada. A não ser o arquétipo malsucedido do bom rapaz.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Pergunta


O que fazer quando a dor latente extrapola o espaço que habitualmente ocupa e escorre através dos olhos?
O que dizer sobre tanta ausência, sobre tudo o que poderia ser e que não foi?
Sinto falta. Falta dos conselhos que nunca pude ouvir, das censuras que nunca recebi, dos abraços de que necessitei e que jamais serão restituídos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Minha de novo

Vamos, entre
Não tenha medo, sente
Acabe com este silêncio, fale
Pensando bem, cale


Em meu rosto habita tanta dúvida, mire
E em seu dorso, o peso da culpa, mas tire
Não falaremos sobre nossos embates agora, adie
Essa noite é de deleite, então aproveite


O quarto ainda é o mesmo, se achegue
Nossa cama continua refúgio, deite
Não precisamos nem de prelúdio, apenas deixe
Hoje o meu corpo clama pelo seu, por favor, o aceite

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Redentora Visita



Acordou com aqueles olhos de ressaca, vermelhos e inchados como se tivessem dormido por semanas. Parou ante ao espelho do banheiro sujo. A imagem que via era a de um sujeito magro, de braços finos e longos, dentes amarelos e cabelos que lhes caíam até as maçãs do rosto. Lavou a face coberta de pêlos ralos, bebeu água direto da torneira e mijou todo o resultado da noite passada. Cuspiu para o vaso o gosto amargo da boca e, por um momento, pediu que a descarga levasse também algumas de suas memórias.
Na cama novamente, acendeu e tragou seu cigarro barato. Logo na primeira brasa imaginou o quão eficaz seria ter, assim como o urinol, um dispositivo que expelisse toda sorte de excrementos. Resíduos fétidos não absorvidos de seus desamores, relacionamentos malsucedidos e frustrações diversas. Pensou estar delirando.
Abriu as cortinas para verificar se o mundo lá fora estava tão desajustado e mórbido quanto ele o estava. Através da janela observava-se um céu em dégradé, que ia do azul turvo ao cinza triste. Os automóveis, a poucos metros do pequeno edifício de três andares, corriam mudos e pareciam não ter sentido. As pessoas apressavam o passo para fugir da chuva que se aproximava e não olhavam umas para as outras. Pareciam formigas desorientadas e vacilantes.
Alheio ao movimento da rua, tragou o cigarro até o filtro e jogou a bituca na calçada, sem ao menos ter o cuidado de não acertar alguém. Olhando para o nada, achou que o dia combinava com um acontecimento incomum, que agitaria a vizinhança e lhe safaria de sua própria existência. Quis acabar-se na grama do jardim do condomínio. Riu de sua tolice quando se deu conta de que morava no primeiro apartamento logo após o térreo.
Saiu da janela e vestiu o jeans surrado que amarrotava-se junto à parede. A campainha soava delicadamente. Abriu a porta sem espiar pelo olho mágico. Ensaiou uma expressão de surpresa ao deparar-se com a velha mãe, que trazia no rosto um enorme sorriso terno. A mulher entrou, olhou para o filho com os olhos que melhor traduzem a beleza das coisas. Tirou da sacola de feira um potinho com bolinhos de chuva ainda quentes. Acredite, ela fazia os melhores. Tirou também um embrulho, pediu que o filho abrisse. E ele o fez. O que era? Lembranças. Amáveis lembranças envoltas num papel vermelho brilhante. Recordações que cheiravam a pipoca, groselha e maçã do amor. O rapaz rendeu-se às lágrimas. Acariciou o Fusca preto que certo dia ganhara no tiro ao alvo, no parque de diversões que havia se instalado no bairro em que morava. O brinquedo estava perfeito. Ao contrário dele, conservara ilesa toda a simplicidade e a inocência da infância. O filho encolheu-se no chão, recostou a cabeça no colo da mãe e viu nas rugas daquele rosto um motivo para sair do poço de estupidez e perturbação que pouco a pouco o afogava. A velha afagou os cabelos do filho e disse com a voz mais aveludada que existe: - Volta para casa. O seu quarto, suas coisas, o meu amor e tudo o que você abandonou continuam como esse carrinho, intactos.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

"E eu sou só mais um desses meros tão mortais"


Não sei quem está certo em toda essa história. Você me acusa de uma porção de coisas, diz que sou negligente, frio, distante e o diabo. Já objetou acerca de minha previsibilidade e taxou de monótonos os nossos momentos. É tão mais simples identificar o que nos incomoda, não é? Parece que o que nos perturba no outro está sempre à flor da pele, pura e translucidamente perceptível. É. Os sinais de cisão vieram mais cedo do que imaginara. E eu que pensei que isso fosse característico de relacionamentos longevos. Engano meu.
Peço-te perdão. Reconheço que, às vezes,aparento pairar em minha própria órbita. Admito que posso ser incoerente, e até leviano em certos aspectos. Mas, por favor, não me ultraje a ponto de lançar apenas sobre mim o fardo de nossos problemas. Vasculhe sua conduta e verá que em muitas coisas você também tem sido falha. Faça isso sem medo ou culpa. Não há condenação em reconhecer nossas debilidades.
Sabe, sinto o fato de você ater-se a nomenclaturas e simbolismos. Em minha humilde concepção, penso que o que significamos um para o outro é que deveria estabelecer nossas diretrizes. Acho que nossos rostos e a aparente felicidade é que deveriam estampar nossa consideração mútua.
Peço que você não me idealize, seria uma tarefa absolutamente vã. Peço que não me cobre, que não reduza o que há entre a gente a um mero compromisso pré-estabelecido. Desejo sinceramente que deixemos ser, deixemos estar. Quero que aproveitemos e saibamos destilar o que há de melhor em nossa essência. Espero de verdade que façamos valer a pena, que lancemos ao rol dos momentos memoráveis cada peculiaridade do tempo que passamos juntos. Eu ainda estou disposto a isso. E você?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Beginnig


Sinto-me meio cansado, desmotivado. E isso não tem nada a ver com ninguém, a não ser comigo mesmo. Talvez eu não seja maduro o bastante para levar coerentemente minha semi vida adulta. Gostaria muito e receio que eu realmente necessite de férias. Deixar para trás velhos (e queridos) rostos, contas pendentes, livros a serem lidos e filmes por assistir, e todos os protocolos e rituais de minha rotina, nem que fosse por um curto espaço de tempo seria, no mínimo, aliviador.

Às vezes penso que tudo o que precisamos é esquecer (d)a vida, para quiçá então vivê-la intensamente. Esta seria uma bela frase, não fossem o ônus e as dificuldades que pô-la em prática implicam.

Dois mil e dez está só começando. Nos primeiros instantes de sua chegada não fiz nenhum pedido em especial e tampouco estabeleci metas para o novo ano. Acho que tudo o que desejo são conversas espontâneas, sussurros ao pé do ouvido, olhares e sorrisos sinceros e abraços apertados de braços acolhedores. Em 2010 quero mais noites sem dormir, quero minha risada fácil, quero beijos intermináveis. Peço que este ano me preseteie com alegres banhos de chuva, com café e cama quentinhos, com mais adrenalina nas veias.

Ao fim deste ano quero rever meu baú particular, e me certificar de que valeu a pena acumular toda a bagagem ali contida.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

E meu mundo girou


Ontem me peguei revirando algumas gavetas. Não sabia muito bem o que procurava, talvez tudo o que eu queria era rever livros, apostilas e papéis velhos que ali jaziam desde 2008. Passei brevemente os olhos sobre o caderno que usava no cursinho, reli alguns esboços de redação, encontrei o encarte publicitário do cursinho, com a foto e o nome dos aprovados no vestibular 2009 da UEL. Foi bom recordar aquele vitorioso 16 de janeiro, ouso dizer que foi um dos dias mais felizes da minha vida. O ano de 2009 realmente passou voando. Mesmo sem saber se fiquei ou não de exame em Sociologia, sinto-me estimulado com o fato de em breve me tornar um veterano.
Esse primeiro ano na Universidade foi um tempo intenso e de muitas mudanças, foi, sem dúvida, um período de amadurecimento e enriquecimento cultural. Todavia, creio que as melhores recordações não ficaram por conta das técnicas jornalísticas que aprendi ou dos seminários que apresentei. As pessoas que conheci esse ano, sim, foram responsáveis por minhas melhores lembranças. Desde as mais cômicas como as reuniões no Parque Universitário e as peripécias pelos barzinhos da cidade, até as mais simples como os jantares no RU e os papos regados ao café aguado do Pinguim. Para mim, ingressar na academia não significou apenas o ponta pé inicial para a profissão que escolhi, representou encontrar pessoas incríveis, cuja amizade eu quero levar para o resto da vida.
Em 2009 eu aprendi que passar o fim de semana estudando nem sempre garante boas notas, mas o fazer continua sendo a alternativa mais coerente. Aprendi também a não traçar longos percursos, e sim percorrê-los aos poucos enquanto seu trajeto é desenhado ao sabor do acaso. Nesse ano me vieram novos amores, cada um, com sua graça peculiar, me fez (faz) feliz de maneiras diferentes. Também em 2009, veio ao mundo o maior amor da minha família, uma bela e encantadora garotinha de olhos grandes. Em outubro eu finalmente consegui a aguardada CNH, minha carta de alforria aos ônibus lotados.
Em 2009 eu chorei, sorri, gritei, dancei (sim!). Esse foi o ano em que percebi o quanto fico engraçado quando de porre. Foi o ano em que tive medo, medo de perder pessoas que estimo, medo da violência, medo da rejeição, medo de fazer escolhas erradas, medo da vida. Mesmo assim, digo sem sombra de dúvidas que foi o ano em que mais vivi! Àqueles que, de uma forma ou outra, me ajudaram, me alegraram, me suportaram ou simplesmente marcaram presença, o meu obrigado. Vocês contribuíram para a construção de parte da minha felicidade (porque a felicidade é algo que edifica-se em partes, cuja estruturação jamais cessa). E, por que não, do meu caráter.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Siga os ditames e seja feliz


Preceitos "verdadeiros" para que a ordem seja mantida.


Tenha um emprego. Ganhe seu próprio dinheiro e pague suas contas. Não falte às aulas. Entregue em dia todos os seus trabalhos e leia a bibliografia básica do curso. Planeje o futuro e vislumbre onde quer estar daqui a cinco anos. Seja gentil com as pessoas e diga sempre “obrigado”. Tenha cuidado com o que fala! Palavras cirúrgicas não são bem-vindas em nossa sociedade. Cultive a política da boa vizinhança, mesmo que isso compreenda calar aquele “filho da ...” que vem à boca quando vez ou outra te prejudicam (há verdades que não precisam ser ditas, mantê-las incólumes dentro de si, às vezes, pode transformar o teu silêncio no mais eloquente dos discursos).
Ria quando a situação for engraçada. Mas o faça moderadamente, afinal, exageros são para os insensatos. Comova-se quando for o caso, no entanto, guarde as lágrimas para mais tarde, no quarto. Chorar em público é coisa de gente fraca, que não tem autocontrole. Use roupas que descrevam quem você é. Compre. Parcele em quantas vezes for preciso. Troque por um novo. Gaste! Pois, como diriam os Engenheiros, a “satisfação é garantida, e a obsolescência é programada”. Globalize-se. Entenda o porquê de tantos protestos contra o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad (mas antes, procure recordar para quem você votou nas últimas eleições para deputado estadual). Mantenha-se informado. Atualize-se. Não perca tempo!
Não faça greve, tampouco apóie movimentos sociais. De baderneiros já bastam os que organizam o narcotráfico. Não fure o sinal vermelho nem exceda o limite de velocidade da via, ainda que isso possa evitar que roubem teu carro ou te baleiem na cabeça. Não fume em bares e boates e em toda sorte de lugares públicos, exceto a rua. Não fume. Beba com moderação. Use camisinha e, sobretudo, faça sexo sempre que solicitado. Afinal de contas, você é homem, oras! Não use drogas. E, por último mas não menos importante, mantenha-se sóbrio! Mesmo que o mundo a sua volta rogue por certa dose de insanidade.

domingo, 20 de dezembro de 2009

So easy


Por que você não acredita quando eu digo que o que passamos juntos foi importante para mim? Não tenho o costume de mentir, muito menos de brincar com os sentimentos de outrem. Na realidade, nunca fui um conquistador ou o queridinho das garotas. Apaixonei-me algumas vezes, mas sempre cheio de reservas. Ainda não aprendi a relaxar e a permitir que o acaso ensine o certo e o incerto. Infelizmente levo comigo alguns preceitos particulares dos quais ainda não tive coragem de abrir mão, eles são culpados por esse meu medo de me envolver.
Foi você quem sempre falou que não havia um manual que nos mostrasse como proceder, que não era necessário lidar com certas coisas de forma tão regrada. Sabe que você me lembra uma canção? “So easy” é o nome dela. Não há como dizer que para mim foi tudo em vão, a verdade é que eu tentei assimilar uma porção de coisas. No começo do mês, depois de tanto tempo, entrei novamente em seu apartamento para pegar algumas cervejas junto com uns amigos. Foi bom rever a cama cheia de roupas, os copos e pratos por lavar. Fiquei poucos minutos por lá, o bastante para passar os olhos em tudo, inclusive em seu mural de fotografias, no qual obviamente não estou.
Agora você anda dizendo que sou eu o culpado por seu mau humor, fala que gostaria que eu me magoasse com a pessoa que agora está comigo, admite querer que eu me machuque, na mesma proporção que um dia eu te machuquei. Ora, perdoe-me se te feri. Mas por que você se diz ferida? Moça, talvez eu não tenha tentado o bastante, talvez eu não tenha nos dado o tempo necessário, entretanto, creio que você estaria pior se a gente tivesse continuado. Você me acusa de leviandade, todavia, creio que o meu grande erro seria não ter tentado. E desse fardo estou livre. Não é sempre que as coisas saem como planejamos. Não devemos nos crucificar ou procurar responsáveis por nossos insucessos.
Querida, aceito se disser que nunca mais olhará em meus olhos, entendo se declarar que não é possível a gente freqüentar os mesmos lugares sem que pese o clima. Mas, sinceramente, não me arrependo de nada. Nada. Dentre todos os possíveis adjetivos, eu realmente espero que você tenha levado apenas o meu melhor. Foi o que fiz com você.

domingo, 22 de novembro de 2009

Bagunçada bagagem


Quando a luz do Sol enfim transpôs a persiana Fred tomou coragem para deixar a cama. Sobre o criado mudo estavam o cinzeiro, o maço de cigarros e o saudoso retrato que ele havia tirado com Ariel no outono passado. Naquela época as preocupações não eram as mesmas de agora, naquele tempo as brigas e discussões não surtiam efeito algum, eles se sentiam inabaláveis. Hoje as coisas não mais funcionavam daquela maneira, tudo estava diferente, apesar de Ariel ainda conservar o olhar tenro e sua pele ainda cheirar a alecrim.
Há algum tempo atrás, após o término daquela aula de ética que era um porre, Fred e sua moça juraram amor eterno. Ele beijou a mão suave de sua pequena enquanto inalava o perfume que vinha de seus cabelos, tão curtos quanto os dele, mas de uma beleza incomparável. Fred prometeu que se casariam após a faculdade, Ariel assentiu, já que não restavam dúvidas de que aquele era o homem com o qual ela queria amanhecer todos os dias.
Antes mesmo de lavar o rosto, o rapaz acende um cigarro, senta sobre o pufe vermelho ao lado da cama e se põe a recordar momentos de uma história que por longa data foi como um sonho bom, daqueles em que a gente não quer nem acordar. Abraçada ao travesseiro estampadol, Ariel dormia serena e ingênua, como quem dá de ombros para tudo o que pertence ao mundo desperto.
Fixados com imã na porta da geladeira estavam a conta de luz e o boleto para pagamento do aluguel do pequeno apartamento. Na despensa havia apenas um vidro de Nescafé e de azeitonas, açúcar, óleo e um pacote de arroz pela metade. Desde que decidiram morar juntos os dois passavam por apuros. Os pais de Ariel desaprovavam o romance, por conta disso mandavam apenas o dinheiro que a garota gastava com transporte e alimentação durante o período de aulas. Fred era estagiário numa agência de publicidade, ganhava pouco. Da mãe, funcionária pública, obtinha apenas o dinheiro do aluguel.
Fitando de longe a ultrasson jogada num canto do quarto o rapaz entendia o quanto amores arrebatadores e realidade podem representar elementos antagônicos. No dia em que Ariel trouxera suas roupas e pertences para o número 104 do residencial Manuel Bandeira nem lhe passava pela cabeça engravidar no mês seguinte. Tudo bem que os dois já haviam pensado em um casal de filhos e em todos os presentes que circundariam a árvore de natal nos tempos de festa, mas aqueles eram planos para uns oito ou dez anos adiante.
Ainda restava um ano e meio para a formatura e seu ingresso efetivo na tão sonhada profissão, entretanto, Fred já sabia o que era fazer alguns serviços por fora para pagar uma conta que sua renda mensal não conseguia cobrir. Dois anos para planejar seu casamento e arquitetar a lua de mel em Porto de Galinhas, e daqui a seis meses o jovem já seria pai. Era moço e não tinha muito conhecimento de mundo, mas agora tinha ciência de que a falta de dinheiro realmente pode abalar relacionamentos.
Fred sente um lampejo desesperador, um nó angustiante na garganta. Olha para o telefone e pensa em ligar para a mãe, chorar e pedir abrigo contra as quimeras que lhe assombravam a mente. Na cama, Ariel desperta e lhe sorri um sorriso encantador, o que logo o faz desistir da ligação, acender outro cigarro e voltar para a cama.