sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Vem comigo?


Você se surpreenderia se eu te fizesse uma proposta absurda? Tão indecorosa quanto gargalhadas em meio ao caos? Você estranharia se eu dissesse que já não tenho a mesma vontade de perseguir velhos sonhos? Você condenaria a minha inconsequência se eu resolvesse parar com tudo isso? É que estou cansado, sinto que meus pés vacilam e que a mente anela por novos ares.
Não sei você se entregaria a tal loucura, mesmo assim insisto na pergunta. Vem comigo? O lugar exato ainda é desconhecido, e o que faremos quando chegarmos lá quem vai decidir é o acaso. A única coisa de que tenho certeza é que não quero prazo para voltar ou preocupações que importunem minha mente. Pense em como seria fantástico! Sumiríamos bem cedinho, antes mesmo de o Sol raiar. Aos nossos queridos, diríamos apenas que decidimos dar um tempo, explicaríamos que os nossos celulares permaneceriam desligados, mas que ficaríamos bem.
Pelo caminho, observaríamos as montanhas e os olhares daqueles que habitam os vilarejos que circundam as auto-estradas. Isso é tão estimulante para você como é para mim? Ah, só em pensar que nossos credores encontrariam a casa vazia quando viessem nos procurar... Que ligariam repetidas vezes e em vão deixariam mensagens na secretária eletrônica... Sinto-me envolto num lampejo da mais perfeita paz só em me imaginar adormecendo e acordando ao seu lado. Enquanto estivéssemos lá o tempo escorreria por nossos dedos, e nós, é claro, não atentaríamos para qualquer coisa desse tipo, já que seríamos o bastante um para o outro.
Depois que estivéssemos refeitos, cheios da perspicácia necessária para enfrentar a insanidade que há por aqui, nós arrumaríamos nossas malas e compraríamos um simpático souvenir. Só então, já com a saudade característica dos dias belos, retornaríamos às nossas atividades habituais. No entanto, faríamos um juramento, eu prometeria que a essa fuga seria repetida sempre que preciso fosse, e você, aceitaria me acompanhar por onde quer que eu fosse.

“E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada”

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Eu? Incógnita.


Para muita gente falar de si mesmo não é tarefa fácil. Alguns são ótimos em análises psicológicas alheias, mas esmorecem quando se trata de reconhecer os próprios defeitos ou simplesmente fazer uma breve leitura do seu ser. Definitivamente, eu não sou desses. Ao contrário, às vezes despendo tanta atenção explorando o que me faz mal ou superestiamando os meus complexos que vez ou outra ouço: “credo, cadê sua auto-estima?”.
Não, esse não será mais um texto em que eu abordarei minhas desventuras, lembrarei com carinho e saudade as coisas passadas ou traduzirei meu estado de espírito. Por hoje está de bom tamanho uma reflexão introspectiva acerca de mim mesmo.
Àqueles que não me conhecem, apresento-me, Danylo, 19 anos. Dispenso mais descrições, mesmo assim, vale salientar, não sou o tipo de cara que por onde passa monopoliza as atenções femininas. Não cultivo um corpo atlético e muito menos sou um desportista, apesar de eu já ter me aventurado em bater uma bolinha e terminar de maneira digna uma partida de voleibol. As pessoas dizem que sou desengonçado, que não me veem desenvolvendo uma atividade física sem arrancar risos de quem está por perto. Acho que elas me convenceram disso e em parte estão certas, ultimamente tenho sido um perfeito sedentário.
Nota-se em mim uma ansiedade que às vezes chega a ser exacerbada. Eu bem que tento dosá-la da melhor maneira possível, mas nem sempre obtenho êxito. Esse, inclusive, foi um dos motivos pelos quais fui parar na terapia quando pré-adolescente. Não poderia deixar de mencionar a minha capacidade de dramatização, é claro que faço uso dessa habilidade em junção com o humor. “-Fulana está enjoada. -Ih, deve estar grávida!”. “-Acho que não vou te ver amanhã. – Está me evitando, certeza!”. :D
Trabalho 220 horas mensais com algo que não tem nada a ver com minha área de formação. Isso por algumas centenas de reias que no fim do mês eximem minha família de gastar ainda mais com a minha existência (dessa vez não estou dramatizando!). Não escrevo tão bem quanto a maioria dos alunos da minha sala e estudo sempre nas vésperas de provas. No primeiro semestre me rendi ao sono em plena aula pelo menos duas vezes, talvez por conta disso eu também não tire as melhores notas. Ah! Só para mencionar, eu não tenho a mínima ideia de qual linha jornalística desejo seguir. Todavia, estou sossegado quanto a isso, já que conheço alunos do segundo e terceiro ano que ainda carregam dúvida similar.
Há quem me julgue alguém sem sal nem açucar, uma passoa previsível. Há quem me ache engraçado e valorize o fato de eu curtir um acalorado debate. Uns dizem que sou implicante e volta e meia possessivo. Outros me consideram um bom amigo, companhia para todas as horas. Não corresponder a certas projeções pode ser decepcionante, mas juízos de valores pouco importam. Todos sabemos que é no recôndito de nosso ser onde fica guardado o melhor de nossa essência. O que destilamos para aqueles que estão à nossa volta é apenas parte do que realmente somos.
As incertezas são muitas e constantes, a insegurança acerca do futuro é recorrente. Mas o fato de eu ter o tímido vislumbre de quem quero ser e onde quero chegar já um bom indicativo de que estou no caminho certo.

sábado, 22 de agosto de 2009

Você


Você é como um poço de dualidades. Ao passo que, vez ou outra demonstre docilidade e complacência, na maior parte do tempo a resposta aos eventuais questionamentos estão sempre à boca. Todas as suas ideias e conceitos parecem estar totalmente formulados, apenas esperando o momento oportuno de vir à tona. E quando é para colocar as cartas na mesa, você simplesmente o faz de forma transparente. Não que isso não abra margem à dúvidas, porque, às vezes, decifrar o que se passa em sua cabeça parece ser tarefa homérica. Você é tão decidida e segura se si, é como uma Rosa Parks dos anos dois mil, e não há ninguém que a convença de que o seu ideal não é importante o bastante. Com toda a beleza de que dispõe, você apenas ignora aqueles que, tolamente, julgam amorfos os seus pensamentos ou antiquados os seus princípios. Te observar e entender é como apreciar o resultado do árduo trabalho de um pintor expressionista, embora explícitas algumas características, há sempre uma reflexão individual e subjetiva acerca do seu ser.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A ligação, o encontro


Nino custava a acreditar, estava novamente falando com aquela que há um tempo atrás preenchera sua mente com as mais belas fantasias e o fizera projetar experiências memoráveis a dois. Não que algum dia eles tivessem se afastado por completo, mas dessa vez era diferente.
A conversa fluia com a mesma naturalidade de um ano atrás, a mesma simplicidade que o havia levado a desbravar o terreno incerto de sentimentos que nem mesmo ele sabia nomear. Alice continuava a mesma, não havia nenhum sinal de alteração em sua meiguice e cortesia. O papo durou horas, ainda que pelo telefone, não houve quaisquer impecilhos para que os dois falassem sobre o trivial, contassem seus novos planos e marcassem de se ver. Apesar de cansado e preocupado com algumas pendências no escritório, Nino sentia-se leve, aquele telefonema o fizera dormir em paz.
O encontro não seria noturno, era melhor que a calmaria e a moderação da hora do almoço evidenciassem apenas o necessário, delineassem os fatores que poderiam os levar a uma possível negociação. Nino não se lembrava de como aquela mulher era formosa. Havia meses que ele não sentia o seu perfume ou observava calado aqueles trejeitos tão sutis. O rapaz já nem recordava que Alice usava piercing no nariz. Aquela peça reluzente realçava ainda mais o seu ar de menina, ao passo que seus olhos claros continuavam a ostentar a determinação que tanto o encantava.
Devido ao horário e as tarefas a cumprir, o almoço fora breve e o colóquio casual. Nino não esperava grande coisa daquele encontro, embora estivesse contente com o momento preferiu não se expressar de forma que a constrangesse, escolheu não se precipitar como outrora havia feito. De fato, os dois não falaram sobre sua vida em comum, não tocaram em assuntos passados e tampouco estabeleceram como haveria de ser dalí para frente. Ainda assim as coisas sucederam-se de forma bastante agradável, o que Nino julgava ser impossível após os desentendimentos que os haviam tirado de perto.
Naquela tarde o rapaz não conseguiu mais trabalhar, a todo momento parecia escutar o “R” acentuado que Alice levava à voz, tão diferente do som do seu “R” de paranaense interiorano. Por vezes ele caçoava dela por falar como paulistana, enquanto, aos risos, forçava o “R” ao dizer “alaRme”, “poRta”, “poRque”. Nino inventou ao chefe uma disculpa qualquer e pediu licença para passar o resto da tarde em casa. Estava chovendo e fazia frio, e até isso o fazia pensar nela, lhe trazia à memória as noites de inverno em que eles passavam um tempão falando sobre o cotidiano. Já em casa, o rapaz deitou-se confortavelmente em sua cama, acabou adormecendo. Não houve trégua mesmo assim, em seus sonhos Alice aparecia serena e sorridente, tão feliz quanto as cores do cachecol multicolorido que ela usava no dia em que o conhecera.

domingo, 16 de agosto de 2009

Depois que a noite terminou


Depois de todas aquelas horas, quando enfim o Sol entrou por entre a cortina mal fechada, levantei-me, apanhei minhas roupas espalhadas pelo chão e evitei ao máximo fazer barulho. Ela estava lá, nua e inerte sob o lençol de seda preta. O carimbo de meus dentes em seus ombros e a garrafa de vinho tinto abandonada junto à parede denunciavam detalhes de algo que não deveria ter acontecido. Não daquela forma, não depois de toda a estranheza percebida em seus olhares e gestos nos momentos que antecederam nossos desatinos.
Enquanto me vestia procurei não olhá-la novamente. A sobriedade matinal, acrescida à razão que ainda me restava insistiam em questionar o por que daquela noite. Por um momento eu tentei me auto-justificar, explicar para mim mesmo que não fora de todo um erro eu ter aceitado o seu convite para entrar, beber alguma coisa e conversar um pouco. Mas não havia uma explicação coerente.
Ora, já havíamos conversado. Ou melhor, ficamos um bom tempo juntos e nenhum papo bacana tinha vindo à tona. Nada que tivesse funcionado como prefácio para uma noite a dois. Laura estava distante, parecia constrangida, receosa. Durante aquelas horas falamos sobre o trivial, como amigos que não se viam há alguns meses e não sabiam como quebrar os protocolos, passar à intimidade costumeira. Mesmo assim eu entrei, e foi dessa forma que tudo aconteceu. Cada um fez o que deveria, experimentou as devidas sensações e ponto. Nossos corpos se entenderam, houve o deleite habitual. Entretanto, agora que o dia amanhecia, pude sentir que tudo não passara de um intenso ritual de volúpia, despojado do carinho ou da interação de outrora.
O que lhe preocupava, lhe tirava a paz e a naturalidade eu desconhecia. Laura, por sua vez, preferiu fingir não havia nada errado. Acho que o vazio no pequeno apartamento e a solidão em sua cama quando ela despertar deve dizer alguma coisa. Calcei os meus sapatos, guardei no bolso a chave do carro e lavei o rosto. Abri a porta cautelosamente e saí, deixei o banho e o café forte para tomar em casa. Talvez Laura telefone quando se acertar, antes disso ficarei na minha, não quero repetir o erro de ter junto a mim o seu corpo enquanto sua alma voa longe. Se não é por completo, a metade eu também não quero.

sábado, 15 de agosto de 2009

"Repeat" Compulsório


Há tempos que me sinto assim, cansado e um tanto incomodado com toda essa mesmice. Já ouvi dizer que toda rotina tem sua beleza, não sei, por mais que eu tente e me esforce para tanto não consigo enxergar graça na minha. A impressão que fica é a de que os meus dias se desenrolam e fluem como as águas de um extenso riacho de mediocridade.
Logo logo, um ou outro que se der ao trabalho de ler esse texto virá até mim dizer que eu não consigo escrever sobre coisas alegres, que eu pareço cultivar uma paixão recolhida pelo funesto, pelo pungente. E eu, mais uma vez vou dizer que isso não é verdade. Posso escrever sobre tudo o que me for solicitado, no entanto, há que se levar em consideração que no momento isso é tudo que me ocorre.
Não estou vivendo nenhum tipo de desgraça, não estou sendo vítima de coação, tampouco ando depressivo. Estou bem. Mas, sabe quando lá no fundo percebe-se que a estagnação vem corroendo aos poucos? Quando a cada dia a estabilidade lhe sorri dizendo: “Sou tão feliz por tê-lo ao meu lado!”... Ok, a companhia que ela me faz não é de todo ruim, até admito que me agrada um pouco. O problema é que a nossa união vem perdurando, isso cansa às vezes.
Refletir acerca disso é algo que cabe só a mim, tornar público o laudo dessas viagens é apenas consequência. A excitação e o contentamento a gente vive, compartilha. O marasmo e a insatisfação a gente pode até comentar com os mais chegados, porém, pensar e agir no sentido de transpor tal situação é tarefa individual, na maioria das vezes. Agradeço aos amigos de sempre, aos bons e velhos e aos novos também. Continuo dando o devido valor a tudo aquilo que para mim vocês representam, mas por hoje quero ficar só. Quero conversar com meus botões e vasculhar toda essa falsa complexidade, mas por pouco tempo, espero.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Memoráveis detalhes


E de repente bateu aquela nostalgia, sabe? Não sei explicar ao certo, mas de uma hora para a outra foi como se me viesse uma estranha vontade de voltar atrás. Retornar aos anos em que preocupações quanto ao futuro não habitavam minha mente, voltar no tempo, para a época em que tudo era simples e a realidade não passava de uma conhecida distante.
Vira e mexe recordo as pessoas e as situações vividas outrora, me agrada cultivar certo saudosismo, apesar de minha mãe sempre dizer que “relembrar o passado é sofrer duas vezes”. Não concordo com essa afirmação. Para mim, trazer à memória coisas passadas é como assistir a um filme novamente. Simples assim, rir novamente das cenas engraçadas, torcer de novo para os casais ficarem juntos, perceber um detalhe ou outro que à primeira vista passou despercebido, cantar e dançar novamente ao som daquela trilha sonora bacana, e, se for o caso, chorar outra vez. A memória nos permite, em cada época de nossa vida, observar com novos olhares os caminhos já percorridos, dar novas interpretações àquilo que antigamente julgávamos prejudicial ou imprescindível.
É claro, existem lembranças que são como doenças mal saradas, parecem ter ido embora, no entanto, sob determinada conjuntura, voltam à tona trazendo dor ou despertando sentimentos negativos. Apesar disso, não abro mão de minhas memórias, acho que não as trocaria por nada, penso que elas foram essenciais na construção da minha personalidade.
Hoje senti tanta saudade, por um momento desejei ter outra vez comigo as velhas companhias, ter por perto a beleza dos velhos sorrisos e o conforto dos abraços que ainda insistem em resistir ao tempo. Embora ele seja tão implacável, sou grato ao senhor tempo por ele ter esquecido de me fazer esquecer simples porém preciosos detalhes.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Tímida, mas importuna apreensão


Pelo visto a mais nova “peste globalizada” chegou mesmo a Londrina. Até pouco tempo atrás não passava de uma mazela distante, que assolava os países da América do Norte e da Europa, hoje, essa é uma realidade presente. De fato, este é o assunto mais recorrente nas rodas de amigos, entre os passageiros dos ônibus, os idosos nas praças. As várias pessoas usando máscaras ao andar pelo calçadão, os cerca de 300 atendimentos diários de casos suspeitos no Pronto Atendimento Municipal só ratificaram, o medo começou a rondar a cidade.
Medidas visando conter a disseminação do vírus foram tomadas em todo o Brasil, por aqui não foi diferente, escolas municipais, a rede estadual e particular de ensino, a UEL e as demais universidades e faculdades suspenderam suas atividades. Não que eu esteja desmerecendo ou questionando a eficácia de tais ações, mas os shoppings continuam lotados, os coletivos (e eu digo por experiência própria) seguem pingando gente! Será que não restou nenhuma proposta a ser aplicada nesses casos? Não estou defendendo que todos fiquem trancados em suas casas, que as pessoas deixem de se abraçar ou beijar ou que se instaure uma grande paranóia, no entanto, é fácil compreender que esses locais representam perigo de contágio tanto quanto as instituições de ensino.
Chega a ser engraçado, instalou-se entre a população um incômodo receio em relação àqueles que, mesmo de longe, espirram, tossem ou levam um lenço de papel ao nariz. Semana passada não pude evitar de sentir uma pontinha de raiva de uma senhorinha que sentou-se perto de mim no ônbus, a infeliz tossia repetidas vezes, e sem ao menos pôr a mão na boca! É, nem todos estão a par ou são sensíveis ao que está acontecendo, e nem todos aprenderam quando pequenos que esse tipo de coisa é falta de educação.
Só sei que essa pandemia vem dando o que falar, eu não nego, também sinto certo temor. Temor em saber que isso agrava ainda mais a situação da já debilitada saúde pública brasileira, temor ao assistir casos tão tristes de pessoas jovens morrendo e famílias sendo desfeitas. Mas fatalidades acontecem, essa não foi a primeira, e creio que nem será a última doença de proporções globais a acometer o homem. Torçamos para que tudo entre nos eixos novamente, para que os danos sejam os mínimos possíveis e para que não sejamos as próximas vítimas. Eu, hein! =O

sábado, 1 de agosto de 2009

Carta a um irmão amigo, ou o inverso.


Amanhã, dia dois de agosto, é um dia especial, é seu aniversário. Você está tão longe, não poderei sequer dar-te um abraço, mas espero que essas singelas palavras sejam capazes de traduzir o quanto o estimo e faço votos de que sejas feliz.
Há exatos 30 anos você nascia, num ambiente familiar instável e conturbado você cresceu. Desde muito pequeno sabia que a vida não era como nos desenhos animados, prematuramente aprendeu o valor e a importância do trabalho. Eu, é claro, conheço essa realidade apenas por relatos, mesmo assim, sei que não foi fácil para você nem para ninguém.
Os tempos mudaram, a sua vida também mudou. Lembro-me das várias vezes em que fora à porta do colégio resolver minhas pequenas encrencas, era bacana saber que eu tinha com quem contar. Histórias e mais histórias, isso você tinha aos punhados, desde travessuras extremamente elaboradas como bombinhas presas nas caldas dos gatos até as mais inusitadas narrações sobre a sua paixão por motocicletas. A propósito, confesso que foi em sua companhia que vivi momentos de terror sobre duas rodas, de carro não era muito diferente, engraçado como você era afeiçoado por cavalos-de-pau (haha), eu é que nunca gostei de viver perigosamente.
Você, como todo mundo, teve seus deslizes, mas não cabe a mim julgar suas falhas ou ilicitudes. O que eu quero hoje é dizer que não importam as nossas divergências, nem a diferença de idade ou o nosso modo particular de enxergar o mundo. O que nos une é muito mais que o laço materno, creio que além de respeito e afeto, hoje há admiração e cumplicidade nesse conjunto. Sei que você tem passado por um tempo difícil, permanecer afastado daqueles que lhe querem bem é tarefa para poucos, apesar de tantos entraves você tem se saído bem em mais esse desafio. Saiba que me orgulho muito de você e não vejo a hora de as coisas estarem nos conformes novamente. Estamos distantes milhares de quiômetros, no entanto, não há distância capaz de apagar o carinho ou dissipar a energia positiva vinda daqueles que conosco se preocupam. Amanhã será um dia de festa, não quero saber de outra notícia senão a de que esse pequeno apartamento catalão se transformou numa bela farra, tal qual a que faremos para celebrar o seu retorno.
Feliz aniversário!

quarta-feira, 29 de julho de 2009

E para hoje temos... Paz e decontração!


Hoje, enfim, depois de quase uma semana de chuvas e dias acinzentados, o Sol voltou a dar o ar da graça em Londrina. Não que tenha sido aquele dia lindo, que te inspira a andar de bicicleta ou a caminhar no parque, mesmo assim foi bom poder deixar o guarda-chuva em casa e voltar da rua tendo secas as barras da calça.
É, acho que posso dizer que o Sol também me trouxe alívio, já que o dia anterior fora marcado por uma tremenda desmotivação. Depois de uma conversa, ainda que virtual, com um bom amigo, tomei coragem e tirei do pedestal aqueles recorrentes choramingos. Por mais que eu venha me empenhando em tentar viver um dia após o outro, sem dar grande relevância a pequenos problemas e buscando ser mais flexível que o de costume, nem sempre manter a cabeça fria é tarefa fácil. Mas digo sem receio que, hoje, assim como pôde-se ver no alto um tímido céu azul, me dei conta de alguns sinais que estavam passando despercebidos. Finalmente há indícios de bons tempos a caminho. Sim! Se você, caro e talvez inexistente leitor, fosse como eu, uma pessoa extremamente ansiosa e que está em busca da aguardada CNH desde janeiro, eu disse janeiro, compreenderia perfeitamente que não faço uso de exagero! Em breve acontecem os meus exames finais, eu sei que até lá existem várias possibilidades de oscilações de humor e níveis de nervosismo, no entanto, é confortante saber que logo estarei livre de mais esse fardo.
Logo mais também reiniciam-se as aulas, não que eu esteja com muita saudade, mas confesso que durante essas merecidas férias senti falta de alguns personagens, de toda aquela vida corrida e de alguns pratos do R.U. Pouco a pouco tudo vai retornando ao seu devido lugar. A lição de hoje foi que sempre será possível enxergar as coisas de um ângulo diferente, o desafio para os dias seguintes é lançar isso à práxis, assobiar e chupar cana ao mesmo tempo! Hahaha, valeu a tentativa de comicidade! Não? :D

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Desventuras de uma vida vã


Naquela noite fria e chuvosa Bernardo abriu a janela de seu quarto, como se aquele gesto realmente pudesse o libertar da prisão em que havia se tornado sua vida. A chuva tinha dado trégua, o que fez Bernardo fechar a veneziana e retornar ao calor de sua cama foi a brisa fria, um incômodo vento que parecia lhe penetrar a pele até o mais recôndito do ser. O vento que adentrara o recinto trouxe à mente lembranças de um passado não muito distante, detalhes cheios de significado, feridas mal cuidadas que lhe causavam dor.
Dessa vez ele estava sozinho, já não havia o singelo e acolhedor olhar da mãe idosa, velhinha que mesmo doente não mediu esforços para fazer a última visita ao filho na capital. Amanda, sua primeira e única amada, também já não se fazia presente. Não quisera ser cúmplice daquele lento suicídio, voltou para o interior, lugar do qual jamais deveria ter se afastado. Dentre todos os resquícios de sua antiga vida feliz, o que sem dúvida dilacerava o coração e a consciência de Bernardo era a falta que fazia seu filho. Desde o dia em que a mãe o levou embora consigo os cômodos da residência não passavam de meros espaços sem vida. Já não se ouvia o som dos passos do garoto brincando pelo pequeno apartamento. Não escutava-se risos, nem mesmo aquele choro que esbanjava saúde e energia. Tudo o que o homem encontrava ao sair de seus aposentos era a casa vazia e sem cor, vítima involuntária da morbidez em que havia se transformado sua existência.
Mas ele sabia que suas escolhas passadas o haviam conduzido àquela situação, também tinha conhecimento quanto ao que era necessário para que as coisas começassem a se restabelecer. Mesmo assim, já não restavam forças, Bernardo estava entregue, seu maior arrependimento era ter abandonado a cidadezinha onde havia sido criado. Levado pela esperança de alcançar uma boa formação e um emprego bacana, ele deixou sua velha mãe. Ao lado da então namorada, Bernardo obteve muito sucesso, posteriormente veio o casamento e o nascimento de sua mais preciosa jóia. Fascinado pelo dinheiro e pelo aparente reconhecimento, Bernardo fez da empresa em que trabalhava o seu mundo particular. Saía de casa antes das 9:00 h e só retornava quando esposa e filho já estavam dormindo. Em pouco tempo tudo aquilo se tornou insustentável, Amanda tomou sua decisão, Bernardo também, apesar de agora aquilo lhe causar incomparável dor. Só então ele enxergava o quanto havia sido egoísta, lamentava que as palavras não tivessem volta e que algumas escolhas determinassem de forma irremediável o curso das coisas.
Exausto pelas infindáveis noites sem dormir Bernardo levanta, abre novamente a janela, já está amanhecendo. É hora de enganar seu organismo, fingir que está tudo bem e que sua mente está sã o suficiente para encarar mais um dia na metrópole. Não há justificativa para que ele não quebre de uma vez por todas aquelas correntes invisíveis, aquele ciclo doentio, a não ser a de que ele está cansado de mais para arquitetar um recomeço, esboçar uma reação. Lá se vai outro dia na vida de mais um desafortunado, que heroicamente persiste em suportar o insuportável, esquecer as latentes mas dolorosas chagas, dar sequência àquilo que diariamente lhe rouba a vida.

sábado, 25 de julho de 2009

Imprevisto e reflexão na manhã chuvosa



Há alguns dias atrás uma cena marcou profundamente aquela que era para ser apenas mais uma manhã cotidiana. Era bem cedo, antes das sete da manhã, o dia estava cinzento e havia muita neblina. Eu seguia para a auto escola numa via rápida ainda na região onde moro, para mais um capítulo da minha cruzada pela carteira de motorista. Apesar da pouca visibilidade, percebi que que um pouco mais afrente estavam paradas algumas viaturas da polícia e também uma ambulância. Comecei a imaginar o que teria acontecido, o que eu não esperava era logo dar de cara com um corpo já sem vida. Fiquei um tanto impressionado, por um momento tentei imaginar como era a vida daquela pessoa e de seus familiares até aquela trágica manhã. Posteriormente tomei conhecimento de que a vítima era um rapaz, vinte e poucos anos, soube também que ele era morador do meu bairro e tinha saído com pressa de casa, atrasado para o trabalho. Talvez naquele acidente ninguém tenha sido culpado, talvez tenha sido apenas mais uma ironia do destino. Imagina, você sai para trabalhar e não chega à metade do caminho, deixa de beijar sua mãe, esposa ou filhos para acabar atirado no asfalto molhado, reduzido e vulgarizado àquela lona preta, morto, atrapalhando o trânsito e chamando a atenção de curiosos. Você sai para cumprir com seus deveres, quando na verdade, tudo o que você deveria ter feito era ter aproveitado aqueles que seriam os seus últimos minutos.
Vou falar a verdade, na minha opinião a morte não faz sentido algum, mais do que isso, em certas ocasiões morrer chega a ser ridículo! Se você já viveu todos os sucessos e desventuras que lhes eram reservados, tudo bem. Você percorreu o seu caminho, algum dia as coisas teriam de acabar, é assim que funciona. Mas se você é jovem, tem saúde e uma vida estável, é certo admitir tamanha tolice? Me diz, faz sentido morrer sem ter ido às mais loucas festas na companhia de seus amigos prediletos? Tem coerência deixar de viver sem ter tomado o porre do qual você jamais se esqueceria? Ir embora sem ter tirado aquele retrato de formatura ao lado do bando de insanos que te acompanharam por quatro ou cinco anos e que fizeram deste tempo os anos mais felizes de sua vida? Partir sem ter beijado ou ao menos dito àquela garota especial o quanto ela te enlouquecia? Deixar este mundo sem ter lutado e até conquistado a vaga no emprego dos sonhos? Não. Por mais que eu tente não questionar e saiba que não cabe a mim nem mesmo tentar enteder a ordem lógica das coisas acho que nada vai mudar a hostilidade que sinto em relação à morte. Talvez compreender as facetas e os motivos que levam essa dama a interferir de forma tão brusca na vida das pessoas seja algo que transcenda a razão e o espírito humano.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Reinstalar o sistema?


Há algum tempo meu computador vinha apresentanto problemas, executava e finalizava aplicativos sem nenhum tipo de comando da minha parte, parecia estar sobrecarregado. Nem mesmo os vários antivírus que usei amenizaram essa situação. Eu não queria encaminhá-lo ao técnico, me esforcei ao máximo para evitar uma formatação. Apagar os dados, programas de todos os tipos, minhas canções prediletas, toda aquela infinidade de fotos? Não! Eu não queria uma máquina nova, livre de todos os meus vestígios, minha vontade era sanar os erros do sistema mas conservar as peculiaridades que faziam daquele aparelho o meu computador pessoal.
É, não tive escapatória! No momento, digito essas palavras num editor de textos de um computador completamente novo. Não físicamente, é claro, digo novo porque até mesmo o sistema operacional foi trocado. Segundo o técnico, por um mais moderno, mais eficiente, que dispõe de um ambiente gráfico mais bonito. Aparentemente tudo isso é verdade, mas acho que o meu aval definitivo virá com o tempo. Por sorte existem os backups, assim foi possível reimplantar meus arquivos particulares. Posso parecer antiquado ou demasiadamente apegado a pequenos detalhes, mas o fato é que eu não gosto de mudanças repentinas. O novo realmente pode ser bom, no entanto, penso que seria mais fácil se algumas coisas acontecessem de forma gradativa.
Tudo isso me fez pensar em nós, "máquinas humanas". Já pensou se pudéssemos simplesmente apagar de nosso HD os arquivos defeituosos? Ou isolar os resquícios das más recordações, das mágoas, das experiências malsucedidas, tudo com a mesma facilidade com que os antivírus colocam sob quarentena os aplicativos nocivos? Reinstalar o sistema, recomeçar do zero. Fazer um backup de todos os bons sentimentos, de todas as sensações experimentadas ao lado de pessoas especiais e se desfazer do indesejado, deletar definitivamente tudo aquilo que nos esgota a memória e a capacidade de processamento. Seria no mínimo interessante, para muitas pessoas uma possibilidade tentadora. Como já disse, sou um pouco antiquado, apagar os estigmas que o tempo deixa em nossas vidas seria, ao meu ver, o mesmo que sermos despojados da capacidade cumulativa, algo essencialmente humano. Haveria graça em arriscar, se aventurar, existiria satisfação em viver se tudo o que porventura nos afligisse pudesse ser facilmente descartado? Penso que não, felizmente somos máquinas mais complexas que os computadores. Prefiro manter minha configuração inicial!

terça-feira, 21 de julho de 2009

Vou levando


Parece que as coisas não estão indo muito bem por aqui. Os últimos dias não me acrescentaram em nada, ao contrário, saquearam parte considerável da minha semi-paz.
É horrível ter a sensação de estar de pés e mão atados, acho que me sinto assim nesse momento. Pensamentos, desejos e frustrações se confundem. Sinto-me cansado e indisposto, como se tivesse percorrido um longo caminho ou carregado grande fardo. Não que tudo esteja completamente fora do lugar ou tomado proporções desorientadoras, no entanto, tenho a estranha sensação de que para reorganizar todas essas coisas vou precisar de tempo e muita paciência. Não sei se disponho disso atualmente. Uma coisa é certa, preciso de uma injeção de ânimo, algo que me tire dessa incômoda estagnação. Já me disseram que bom humor ajuda em quase todas as situações, só que ainda não processei essa informação, ou melhor, não consegui aplicar isso ao meu dia-a-dia. Penso que bom humor implica em uma série de outros fatores, não é simplesmente um instrumento de defesa ou auto-ajuda.
Pelo menos por hoje eu vou ficar na minha, observar à distância, deixar as águas rolarem. Vou tentar compreender e não vou reclamar tanto. Logo retorno à minha rotina e aos personagens que têm feito dela algo suportável e posso até dizer, interessante.

domingo, 19 de julho de 2009

Pretérito ainda presente...


Se eu tivesse a chance de estar contigo pelo menos mais uma vez...

Acho que boa porte dos meus sentimentos seriam diferentes. Ah! Teria tantas palavras a dizer. Lamento por só tê-las agora que já não te tenho por perto. Se eu tivesse a oportunidade desse momento diria a ti como sou grato por tudo o que para mim você representou. Diria que valeu a pena cada momento que passamos juntos. Te abraçaria bem forte e diria o quanto eu te amo e sinto a sua falta.

Você se foi. Com um “até logo” você se despediu, e nunca mais voltou. Sereno, tranquilo, com uma expressão que guardo até hoje em minha memória. Você simplesmente foi. Deixou a realidade que te cercava, sempre tão dura, sempre tão imponente. Abandonou sonhos e planos pela metade, como se já não fizesse sentido lutar por eles, como se eles não se comparassem com a grandeza do que te aguardava.

Tudo sempre estava ótimo para mim, eu era apenas uma criança. Mas de repente tudo mudou. A beleza e a inocência da infância me deixaram. Depois que você partiu nunca mais fui o mesmo. Você era o meu modelo, você era a minha segurança, você era o meu referencial. Me senti tão perdido quando me vi sem você.

Mas nada disso importa mais. Tudo o que um dia fomos um para o outro continua imutável, guardado em algum lugar entro de mim. O tempo passa, nos acostumamos com situações. Hoje, permanece em minha memória a nossa última conversa, o seu último sorriso. Você adorava me fazer rir, sempre cedia aos meus caprichos com um brilho magnífico no olhar. A sua gargalhada me deixava curioso. Por que sua barriga chacoalhava tanto quando ria? Lembra da luta que era pra arrancar os meus dentes quando eles começavam a amolecer? Você sempre me fazia sentir tão seguro, dizia que não iria doer, que aquilo era necessário para que nascessem dentes mais bonitos e saudáveis.

Como o tempo passa, não é? E ainda assim você visita os meus sonhos de vez em quando. Como se quisesse demonstrar que mesmo distante ainda pensa em mim. Mudei tanto desde a última vez que nos vimos. Ah! Você estaria orgulhoso de mim. Já faz algum tempo que você me matriculou na escolinha municipal lá perto de casa, de lá para cá tive de seguir sem a sua atenção, sem o seu incentivo, mas as coisas se encaminharam. Ingressei numa boa universidade, num curso bacana. A sua paixão por fotografia me ajudaria muito nas aulas de fotojornalismo. Você nem imagina o quanto aquelas câmeras antiquadas me remetem à sua maneira, aos seus gostos, a tudo aquilo que de você ainda resta em mim. Sabe, estou cada dia mais parecido contigo. A mãe diz que até o meu mau humor é parecido com o seu.

Um dia terei minha própria família, e pode ter certeza de que eu vou me esforçar para ser aos meus filhos pelo menos um pouco do que você foi para mim. Direi a eles que o pequeno espaço de tempo em que nossas vidas estiveram cruzadas me fez enxergar o mundo de uma forma diferente. As histerias e as preocupações em relação ao material são tão medíocres, tão dispensáveis em comparação ao sentimental, ao metafísico. Tão irrelevantes quando se trata de pessoas. Ainda mais pessoas que descobrimos ser fundamentais em nossa vida só depois que já não as temos por perto.

Hoje lembrei de você, senti uma vontade gritante de te dizer um sem número de coisas. Mas sei que em algum lugar do futuro isso será possível. Lá ficaremos juntos e tudo será perfeito. Vai ser como você sempre me ensinou: “Tudo vai ficar bem. Papai do céu toma conta de tudo, não se preocupe!”